Tive o prazer enorme em fazer parte de um episódio do programa de rádio Nektar Island, apresentado pelo amigo Chawat Lancien e por Christian Müller na K2K Radio. Nós também falamos no telefone com o grande Martim Fernandes (compositor da trilha original do filme), e conversamos um pouco sobre o processo de criação do curta “Inventário”. De quebra, ainda botamos para tocar Eletroímãs Catalíticos e Crappy Jazz 🤘
Para ouvir o episódio completo, é só clicar no link acima!
Matéria ‘O Cinema em Londrina’, publicada no jornal O Londrinense
Produções cinematográficas da cidade ganham forma e levam seu nome para festivais dentro e fora do Brasil com prêmios e indicações
Escrito por: Vinícius Fonseca
Hoje, 19 de junho, é comemorado o “Dia do Cinema Brasileiro”. E a cidade de Londrina tem muito do que se orgulhar nessa data. Embora relativamente distante do eixo Rio-São Paulo, o município se notabiliza por suas produções cinematográficas. São curtas, longas e até séries para a televisão sendo rodadas com equipes de profissionais que nasceram ou escolheram a “pequena Londres” como o seu lugar de morada. Algumas dessas obras têm, inclusive, representado o País em Festivais Internacionais.
O cineasta Rafael Ceribelli viveu essa experiência recentemente quando o curta “Inventário” (2019) recebeu o prêmio de melhor curta-metragem (Drama) no Creation International Film Festival (CIFF), em Apple Valley, Califórnia. Este é o primeiro prêmio da obra que já havia sido indicada à categoria de design de produção no RedLine International Film Festival no Canadá. “Esses prêmios e indicações validam o trabalho de toda uma equipe e isso é sempre muito bom”, comemora. Ele lembra que já teve um curta circulando em festivais internacionais, como foi o caso de “A Caça” (2017). Filme que, segundo o próprio cineasta havia sido feito como equipe reduzida e recursos próprios.
Aliás, sobre o set de trabalho e as amizades que são formadas nesse meio, Ceribelli reforça ainda mais o potencial de Londrina para as produções da 7ª arte. “(A cidade), tem sempre jovens criando e se especializando, querendo fazer cinema”, diz ele ao lembrar que se envolveu de forma direta ou indireta em diversas obras locais nos últimos anos.
A efervescente vocação cultural de Londrina, com a realização de festivais em diferentes segmentos – inclusive cinema – e o espírito de uma cidade estudantil com a presença de Instituições de Ensino Superior, dentre elas a Universidade Estadual, e seus cursos voltados à artes são alguns dos motivos elencados para justificar a forte cena cinematográfica da cidade.
Bastidores de Inventário, estrelado por Adriano Garib (Foto Marina Pires)
As qualidades londrinenses também são destacadas pela roteirista Alessandra Pajolla, que escreveu “Inventário”, além de já ter roteirizado e dirigido o curta “Redenção”, também de 2019. Para ela, embora a cidade esteja fora do eixo Rio-São Paulo, referência da produção cinematográfica nacional, a cidade tem inúmeras vantagens que podem ser aproveitadas. “Londrina tem profissionais excelentes e cursos para capacitar mais gente. Uma cidade com belas locações e cujas produções custam mais barato do que nos grandes centros”, indica.
Como o grande desafio, não só de Londrina, mas de todo o cinema nacional, Alessandra aponta a formação de público. De acordo com a roteirista, é muito difícil para filmes brasileiros competirem com o grande investimento das produções de Hollywood. “Formar o público é um desafio que passa pelo entrave da distribuição. É preciso mais salas e horários”, considera. “Hoje, quando um filme nacional estreia, o público tem que correr para o cinema porque é grande a probabilidade de ficar apenas uma semana em cartaz. Se estrear com algum blockbuster, não tem como competir”, lamenta.
Dono de uma longa carreira na produção cinematográfica e um dos coordenadores da produtora Kinopus, o cineasta Rodrigo Grota concorda que ainda é necessário pensar em formas de aumentar o público, mas pondera que o cinema nacional tem melhorado seus números com o passar dos anos.
Cartaz do filma Isto (não) é um Assalto
Ele cita o exemplo do filme-documentário, “Isto (não) é um Assalto”, que teve mais de 1 mil espectadores ao longo de três semanas, primeiro longa local a ser exibido em circuito comercial na cidade. “Isso sem verba para divulgação. Considero que esse público foi ótimo para um longa que teve um orçamento irrisório de R$ 45 mil”, vibra.
A frente da “Super Família” (2019), primeira série ficcional para TV rodada em Londrina, Grota avalia que a cidade atua tanto de forma decisiva quanto de forma indireta em cada uma das obras que saem daqui. “Gosto da ideia de que a cidade é ao mesmo tempo algo tão presente e também tão oculta. A cidade já tem um imaginário. Nosso papel é tentar nos aproximarmos desse sentimento que, de certa forma, sempre escapa”.
O nome de Londrina levado longe
Em Londrina já foram produzidos curtas, longas, documentários, séries. Produtos cinematográficos que têm circulado o Brasil e o mundo em festivais de cinema. E levado o nome da cidade cada vez mais longe.
O empresário e produtor cultural, Bruno Marconato começou a se interessar pelos trabalhos produzidos aqui em 2014 e desde então veio se especializando na área e compondo equipes nos sets de filmagem.
Marconato lembra que, em 2018, foi aberto um edital voltado ao interior do Paraná, pelo Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura (Sisprofice), voltado ao audiovisual e dos sete projetos selecionados, seis eram de Londrina. “Desses eu trabalhei em quatro produções”, lembra ele.
Em “Inventário”, uma das produções com a qual esteve envolvido, Marconato foi responsável pela equipe indicada a prêmio RedLine International Film Festival no Canadá e vê isso como um sinal de que o cinema londrinense tem tudo para ir cada vez mais longe. “A indicação é a prova que as equipes de Londrina estão prontas para extrapolar a cidade e ocupar outros espaços. As produções daqui tendem a crescer em qualidade”, sinaliza.
Para Rodrigo Grota, que também já foi premiado com produções rodadas por aqui, há algo de especial em retratar Londrina e representa-la em festivais pelo Brasil e pelo mundo. “Fico feliz, pois Londrina tem uma história, uma memória afetiva, e os filmes contribuem para que essa paisagem ficcional possa ser ampliada. Quase todos os filmes que dirigi só poderiam ser rodados em Londrina”, diz.
Arranjo Produtivo Local impulsiona o cinema londrinense
A indústria audiovisual em Londrina acaba gerando diversos empregos e movimenta a economia local. Estima-se que sejam gerados aproximadamente 1 mil empregos diretos e até 5 mil postos de trabalho de forma indireta.
Para melhor organizar o setor e dar mais representatividade a ele em âmbito estadual e nacional, foi fundado, em 2017, o Arranjo Produtivo Local (APL), para o fomento do audiovisual, conforme lembra o atual presidente do órgão, Guilherme Peraro. “Reunimos algumas produtoras e cada um contou sobre as dificuldades que enfrentava. A partir disso criamos o APL”.
Segundo Peraro, os “frutos” colhidos por Londrina hoje, remontam a um trabalho de, pelo menos, duas décadas, quando começou a ser idealizado o primeiro festival do segmento na cidade. “Fazer cinema é muito caro. Você precisa de um alto investimento, envolve muitas pessoas, mas com esses 20 anos de aprendizado é muita experiência”, relata.
Ainda de acordo com o presidente do APL, para manter o bom nível das produções no município é preciso formar ainda mais mão de obra qualificada e a instituição pretende se valer do perfil universitário existente por aqui. “Nós temos uma pós-graduação em cinema, mas o objetivo do APL é que possamos ter uma graduação na área aqui também”, revela.
Perspectivas para o Futuro
Embora a produção cinematográfica no Brasil imponha desafios como a necessidade da formação de mão de obra qualificada e a necessidade da captação de recursos através da Agência Nacional do Cinema (Ancine), as perspectivas para o futuro do mercado, em Londrina são as melhores possíveis. “A Ancine vive um momento dramático, com os recursos paralisados, o que afeta todos os projetos não só de Londrina, como do país”, lamenta a roteirista Alessandra Pajolla. “Torço para que essa triste fase passe logo, porque o audiovisual é fundamental para a cultura e também para a geração de empregos”, completa
Para Guilherme Peraro, Londrina tem pessoas interessadas em fazer cinema e isso é importante para garantir o futuro da 7ª arte. E reforça, que a capacitação de pessoas e das produtoras são fundamentais. Também, segundo ele, o arranjo produtivo local tem trabalhado para firmar parcerias com os governos local e estadual para viabilizar recursos para as produções. “O APL tem trabalhado para que esses itens sejam garantidos. Com isso teremos boas perspectivas para o futuro”, acredita.
Animado com o que vê na cena local, o diretor Rafael Ceribelli, tem uma visão otimista para o futuro do cinema do município. “As perspectivas são de gente nova sendo inspirada por uma geração que passou do cinema londrinense. A renovação do pensamento no cinema é o que faz uma cena, a cena nunca é feita de uma pessoa só”.
Para ele, enquanto Londrina mantiver esse espírito cultural, o cinema resistirá, pois tem como uma de suas principais características vencer o tempo. “Um filme marca um momento da vida de todo mundo que participou. Isso que é gratificante. O cinema te dá uma perspectiva de eternidade e enquanto esse sentimento estiver vivo, vai existir cinema”.
Confira a lista com algumas produções londrinenses realizadas entre 2018 e 2019
A Rainha Negra das Passarelas (Artur Ianckievicz, 2019, curta);
Trechos retirados da obra “Enchiridion”, de Epictetus. Traduzido por Ceriblog.
A Filosofia, como um modo de vida, faz os homens livres. É a última instância de liberdade em um mundo de servidão. O conhecimento de nós mesmos nos faz sermos livres em um mundo de dependências.
Quando possuir algo, sempre se lembre de que aquilo não é seu. Seja como um viajante que passa por uma taverna. E mesmo se você for reconhecido por outras pessoas, sempre desconfie de si mesmo.
[sobre o ato de pensar] As ovelhas não vomitam a grama para mostrar ao pastor o quanto que comeram. Ao invés disso, elas digerem a grama internamente e demoram para produzir leite e lã.
A condição característica da pessoa vulgar é que ela nunca examina as qualidades boas e prejudiciais de si mesmo, mas apenas dos outros.
A condição característica do filósofo é que ele olha para dentro de si em todas as ocasiões. Um verdadeiro pensador não censura ninguém, não elogia ninguém, não culpa ninguém, não acusa ninguém; ele não diz nada sobre si mesmo e admite não saber nada e não ser ninguém. Se, em algum momento, o filósofo está prejudicado ou preso, ele acusa apenas a si mesmo; se ele é elogiado, ele ri para si mesmo; e se ele é criticado, ele não se defende.
Ele se move com uma convalescência, com o cuidado de interferir em qualquer coisa que faz bem, mas nunca seguro de si. Ele restringe seu desejo; ele transfere sua aversão à tudo que interfira em sua própria vontade; ele usa sua energia moderadamente, em todas as direções; se ele parece estúpido ou ignorante, ele não se importa. Em uma palavra, ele observa a si mesmo como um inimigo que está prestes a emboscá-lo.
É preciso observar, é preciso trabalhar, é preciso melhorar os próprios apetites, renegar seus conhecidos, ser desprezado pelos seus servos, ser alvo de piadas daqueles que te encontram; ser pior do que todos, em tudo – no trabalho, nas honras, nos tribunais. Assim que você tiver considerado todas essas possibilidades, se aproxime delas. Ou seja, estando em paz com estes caminhos, você terá uma mente pronta para te dar serenidade, liberdade e tranquilidade.
Aproveite este momento. Fique imerso em suas particularidades. Responda àquela pessoa, este desafio, esta tarefa. Não se esquive. Não dê atenção aos problemas desnecessários. É a hora de viver; de apreciar completamente a situação em que você se encontra agora.
Recebi hoje a ótima notícia de que nosso curta-metragem Inventário foi selecionado no Redline International Film Festival realizado em Toronto, no Canadá.
É a primeira seleção internacional do curta, que foi rodado em junho do ano passado em Londrina com o trabalho de uma equipe espetacular que deu vida ao lindo roteiro de Alessandra Pajolla; um projeto que tive o prazer imenso em dirigir.
Para mim, foi uma experiência intensa e inesquecível. Começou – como sempre começa – com algumas folhas de papel, rascunhos, conversas com a Alessandra. Tínhamos em comum a vontade de realizar e de aprender pelo caminho. Foi uma construção e reconstrução que começou com as primeiras leituras em cafés, montagem da equipe, encontros na NTVídeo para castings, ensaios, prazos, planos, sonhos.
E, passo a passo, o filme foi se transformando nessa coisa viva, pulsante. O Inventário estava revelando seu verdadeiro caráter, sua vocação para vir ao mundo. Ele seria irrealizável sem a visão estética de Bruno Marconato, sem a fotografia onírica e corajosa de Anderson Craveiro, sem o apoio incondicional de Kung e o trabalho constante de Juliana Boligian, Camila Melara, Marina Stuchi, Bruno Bergamo, Thais Blanco, Carlos Fofaun Fortes e de toda a equipe de assistentes e de pós-produção que se dedicou completamente ao projeto.
Ao mesmo tempo que nascia o filme, os personagens escritos também ganhavam alma. Tive a sorte de encontrar pelo caminho o grande Adriano Garib, um mestre que proporcionou o meu maior desafio como diretor. O elenco secundário foi formado pelos velhos (e novos) amigos Jersey Gogel, Raissa Bessa, Luís Henrique Bocão, Luciano Pascoal e toda equipe de figurantes, que se comprometeram com o filme e mergulharam em seus papéis. Muito obrigado por me acompanharem nessa aventura.
A seleção em um festival é sempre importante porque valida o trabalho de toda a equipe. Pessoalmente, posso dizer que dirigir ‘Inventário’ reforçou o meu maior desejo: o de continuar fazendo Cinema. Sou eternamente grato por isso. Muito obrigado!
* O filme foi produzido com recursos da Secretaria Estadual de Cultura do Paraná e da Ancine, através do edital de fomento à produção audiovisual 004/2017.
Trecho do texto de Michelangelo Antonioni sobre seu filme “O Passageiro” (1974). Traduzido por Ceriblog.
A história de ‘O Passageiro’ é, talvez, minha própria história como artista, como um diretor. Eu não sei se vou resistir: não estou falando sobre a tentação de mudar de identidade, porque todos têm isso. Estou falando sobre destino, e do fato de que cada um de nós carrega seu próprio destino em si mesmo. Eu não sei se vou resistir à todas essas ações que, no final da vida, se juntam para formar o destino de um homem. Alguns resistem, outros não.
Talvez seja um erro mudar de identidade: você abre mão da vida e morre. Tudo depende do que você vai fazer após assumir sua nova identidade. É um pressuposto que provavelmente vai fazer a pessoa entrar em conflito com a própria existência. Um jornalista sempre vê a realidade com uma certa consistência, uma coerência ambígua de seu próprio ponto de vista, que parece objetiva para ele, e só para ele. (…) Afinal, tudo que faço é absorvido em uma espécie de colisão entre a realidade e eu mesmo. Nem lucidez ou claridade estão entre minhas qualidades. Eu nunca vou encontrar nada que seja equivalente à minha própria imaginação.
O filme inteiro é ambíguo, mas eu acredito que é isto que lhe dá um senso concreto. O Ser, diz Heidegger, é o Ser-No-Mundo (dasein). Quando o personagem de David sente que este é o fim (mas provavelmente nem ele tenha certeza), ele já não está no mundo. O mundo está fora da janela. É uma reportagem de sua própria morte.
Poucas pessoas entenderam que, por detrás do personagem de Jack Nicholson, estava eu mesmo. Como ele, eu quis por muitas vezes mudar minha identidade, minha vida, meus encontros, esquecer dos meus amores e dos meus deveres, das minhas presenças e ausências para tomar a identidade de um estranho. Eu também quis começar uma nova aventura.